Santana - Borboletta

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Existem dois tipos de "gosto musical": os que  gostam de percussão e os que não gostam. Pode parecer que estou sendo muito simplista mas observem e tirem suas próprias conclusões. Como tudo é 'educação e cultura", a explicação desta dualidade é óbvia mas, que existe essa diferença, existe. Não é só instrumentos que se aprende a tocar, o ouvir também exige um aprendizado e, se esse aprendizado não existe, aprende-se a gostar do que se ouve, indistintamente, sem método ou critério. E as pessoas, de maneira geral, não estão dispostas a dispender tempo com isso, uma vez que é só se expor à música e tudo se resolve (se é que existe algo a ser resolvido).  É considerado esnobismo, e até visto com desconfiança e, por que não dizer, preconceito, que afirma que gosta de música erudita, "música clássica" como eles dizem pois, até se referir como "erudita" é um desrespeito para  quem gosta de batuque, digo, percussão. Mas a natureza é sábia e esses grupos não interagem provando que a música é sempre um fator agregante, vide o funk.  Por mais que os reacionários de plantão ataquem as novas expressões musicais (não estou discutindo qualidade musical), elas tem mostrado, ao longo do tempo, o que é moda incentivada por fatores econômicos e, o que é a "expressão musical" : o que resta é a música pois, as motivações mudam, e a música quando é boa, permanece. Mas voltando ao Borboletta, com muita percussão: Tendo em vista a história da música americana (Carlos Santana é mexicano radicado na Califórnia), o grupo pegou, de surpresa, a "America" e o mundo quando se apresentou em Woodstock. A cultura musical jovem, nos anos 60 e 70 (depois disso aconteceu a "globalização da música" com a "World Music"), sempre  foi ditada pela "America" e pela Inglaterra, onde a guitarra era a rainha. A percussão (que foi onde comecei) era algo que não era considerado para o público W.A.S.P. (white, anglo-saxan, protestant) pois era uma manifestação da cultura, hoje dita, afro-americana. Mas o Santana não era nem afro nem americano, era mexicano! Talvez isso deixou os "conservadores do rock" (isso sempre existiu) sem saber o que fazer  e, enquanto isso, também como fruto da contra-cultura, o Santana caiu no  gosto "popular". Conheci o Santana através de "Samba pa ti" e "Oye como va" (que estava fazendo muito sucesso no Rio de Janeiro). Confesso que resisti muito a ouvir aquela música porque no título tinha a palavra "samba" e, isso era a antítese  do rock, coisa fora da cultura do rock. Mas quando a ouvi, aquela guitarra me pegou de jeito e ouvi o album inteiro ("Santana Abraxas" de 1970) e descobri que é possível a integração e elementos alienígenas ao rock e, como isso pode incrementar o resultado.  O "fusion" era algo que ainda estava num estágio experimental ("Bitches Brew" do  Miles Davis é de 1970) e se mostrou mais complicado que o prog-rock. Depois do "Abraxas" ("abráczas" como eles dizem) veio o Santana III (que considero o melhor de todos), o "Caravanserai", que marcou uma mudança para o fusion e posteriormente, Carlos Santana se voltou para o misticismo oriental (era moda os artistas lerem a "Paramahansa Yogananda"), logo retornando para algo mais pop. É nesse momento (1974) que surge este "Borboletta". Atualmente a capa, para os ambientalistas, é um sacrilégio mas, naqueles dias, asas de borboleta só serviam para decoração.  Para um conjunto que nasceu baseado na guitarra este disco tem muito pouca guitarra ou, dizendo melhor, ela não é o centro das atenções. Isso não torna o disco ruim, muito pelo contrário, é um album bem equilibrado e "bem latino", dando muito espaço para os metais e, é claro, a percussão. Com a participação de Airto Moreia e sua esposa, Flora Purim (a capa do disco foi inspirada no disco "Butterfly Dreams" da Flora), existe um toque de "brasilidade" especialmente na versão maravilhosa de "Promessas de um pescador" do Dorival  Caymi (alguns anos antes, o album "Caravanserai" nos trouxe uma versão muito boa de "Stone Flower" do Tom Jobim).  Se faz notar, a produção do album, sua mixagem e masterização, que são irrepreensíveis, seja qual for a origem da prensagem (a prensagem da alemã  "Speaker's Corner" é muito caprichada). Não é um album fundamental, não vai mudar a sua vida mas, vale a pena ouvir. Mesmo que você não goste de  percussão.

Lançado em Outubro de 1974

Lado A
1) Spring manifestations
2) Canto de las flores
3) Life is anew
4) Give a take
5) One with the sun
6) Aspirations

Lado B
1) Practice what you preach
2) Mirage
3) Here and now
4) Flor de canela
5) Promise of a fisherman
6) Borboletta

 

Santana - Borboletta

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