A modernidade e a Indústria fonográfica

Published on by Wandique

Naqueles dias, em que todas as coisas eram mais simples, um dos meus prazeres era visitar as diversas lojas de disco da cidade atrás de novidades. Não havia muitas, umas seis ou sete. Comércio só havia no centro da cidade, nos bairros era só padaria e mercearia, shopping centers só tinha o Iguatemi em São Paulo (foi inaugurado em Novembro de 66), e era lá onde encontrávamos os discos importados. Como não havia nenhuma publicação voltada à indústria fonográfica, a divulgação era pelo rádio. Ouvíamos uma música e íamos até a loja ver se o disco havia chegado. Havia uma grande interação entre as lojas e as emissoras da cidade (imagino que isso acontecia em todos os lugares), o rádio divulgava as músicas, as lojas vendiam os discos e, de acordo com as vendas, surgiam programas divulgando as "dez músicas mais vendidas da semana". Assim fechava-se o círculo. O advento da internet mudou completamente o mecanismo de divulgação, suponho que todos sabem como as coisas aconteceram, os mp3, os flac, o streaming. O curioso é como o rádio se adaptou à tudo isso, Primeiro foi a "digitalização" do conteúdo e depois a integração na rede, na internet. Hoje a rádio online (conduzida por djs andróides?), me parece uma aberração pois aqueles que viveram os dias do rádio, tanto os profissionais como os "ouvintes" ainda procuram o mesmo formato de rádio na internet. Hoje mesmo vi um "outdoor" (um billboard) anunciando uma "emissora" na internet como sendo a mais "ouvida" da cidade. Fui lá "ouví-la" e, para meu espanto, "as 10 mais da semana" estavam lá, na home page do site: "essas são as mais pedidas pelos ouvintes". É claro que hoje o "ouvinte" não faz uma ligação telefônica para a "emissora" (muito embora nos "contatos" do site existe um número de telefone) e pede para tocar a música de sua preferência mas o mecanismo psicológico me parece ser o mesmo. Os artistas contam mais com os concertos que a venda de discos, isso é mudança real. Não temos mais uma venda massiva de música num meio físico, usa-se o streaming e isso também é mudança real. Creio que a "modernidade" nos faz imaginar que todo o comportamento muda mas isso não é verdade. Aquilo que é afetado por modismos é temporário pois é artificial. Já estamos no final da segunda década do século 21 e ainda não andamos por aí com macacões prateados. Mas não largamos os LPs; é preciso ser "moderno".

 

A modernidade e a Indústria fonográfica

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