ARC - Neil Young

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"Once I thought I saw you" (Like a Hurricane)

ARC. Um tempo atrás fui convidado, por alguns anos consecutivos, a fazer uma palestra na FAP (Faculdade de Artes do Paraná) sobre música  erudita do século 20 para a turma de musicoterapia. Durante a minha exposição interpretei, para os alunos pensarem um pouco, 4'33'' do compositor americano John Cage. Vocês sabem, aquela peça sem som emitido pelo instrumento executante. Não digo "sem música" pois esta é a discussão: o que é a música? Um dia desses encontrei na internet um trabalho acadêmico de uma amiga que discutia se essa peça do Cage era uma "obra de arte" ou não. Esses debates sempre servem para abrir um pouco (ou escancarar completamente) "as portas da percepção" (quem não leu leia pois ainda é tempo). Nossa sociedade é (ou se tornou) extremamente funcional/operacional/utilitária talvez devido ao caráter capitalista em que tudo precisa ter uma razão que nos leve ao lucro segundo a Lei de Gérson ("gosto de levar vantagem em tudo, certo?"). As pessoas estão, aos poucos, perdendo a capacidade de abstrair a realidade e têm muita dificuldade de imaginar, de devanear, de sonhar. Talvez porque a realidade atualmente não seja algo tão simples de ser percebida e gerenciada. A representação da realidade, em pinturas, desde a idade média nos confronta com esse paradoxo das ilusões de óticas que são do conhecimento de todos. E a ilusão auditiva? Quando Ravel compôs o "Bolero" (em 1928) disse que era uma composição sem música. Muito antes disso o compositor americano Charles Ives escreveu peças para piano que são impossíveis de serem interpretadas por um único pianista num único piano (pois assim foi concebida), só é possível, de acordo com a concepção do artista, "ouvir" a peça diretamente no cérebro, através do olhar (lendo a partitura) e não do ouvir. Peças conceituais. Expansão da percepção (esse era um dos motivos dos cabelos longos da contra-cultura). Desta maneira 4'33'' foi uma evolução óbvia (O "Pássaro de Fogo" de Stravinsky foi muito mais escandaloso). Citei o ARC neste post dada a concepção deste WebLog. É claro que no contexto da "música séria" o ARC é uma imensa bobagem ao nos lembrarmos o que disse Edgar Varése sobre sua própria música: "ruído organizado".

Mas vamos ao disco. São 35 minutos de ... ruídos. Distorção de guitarra, bateria e até uma tentativa de cantar "Like a Hurricane". Talvez não seja bem uma tentativa mas uma pista do que vem a ser o ARC quando pontua: "Once I thought I saw you" (uma vez pensei ter visto você); é isso: "pensei" e não tenho certeza se meus olhos viram. Uma impressão que é rememorada no substrato da música dele, daí os "ruídos" que trazem essa impressão do vislumbre de alguém. Se considerarmos que esse disco possa ser uma expressão de uma impressão fica mais fácil entende-lo e até ouvi-lo. Volta-se à reflexão do "material musical" pois nem sempre nossos artistas favoritos gravam o que esperamos ou gostamos. Depois de uma certa notoriedade ele (Neil Young) pode se dar ao luxo de fazer o que quiser. Se você não gosta de surpresas vá ouvir os Stones.

Alguém, na década de 1990, disse que a história havia terminado. Talvez a música tenha terminado com 4'33''. Talvez. O que vivemos (e ouvimos) hoje é o "resto de silêncio" shakesperiano (Hamlet, ato 5 cena 2).

ARC - Neil Young

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