Precisão obsessiva conduz à ansiedade ?

Published on by Wandique

"It's impossible to achieve the aim without suffering"  (J.G. Bennett - "Conscious Labour and Intentional Suffering")

Esse título pode parecer que não está relacionado ao tema do WebLog mas ... Duas semanas atrás recebi uma cápsula do toca-discos que eu havia enviado para conserto. Como o serviço me brindou com uma agulha com outra "arquitetura" eu estava curioso para saber como soaria este melhoramento. A diferença entre os diversos "cortes" de agulha está relacionado à profundidade que a mesma alcança o sulco, umas mais "rasas", outras mais "profundas".

 As mais rasas são as agulhas cuja ponta é cônica, depois vêm as elípticas, as "linear contact" e finalmente as "microline". A profundidade do alcance implica em maior precisão na captação da informação contida nos sulcos. A agulha que recebi é uma "linear contact". Muito bem. É fundamental saber que, ao abraçar este hobby, pode-se tomar dois caminhos distintos: simplesmente ouvir os discos sem se preocupar com o equipamento (e consequentemente com a qualidade do som reproduzido) ou buscar uma reprodução fiel, que é a chamada alta-fidelidade (não entro no mérito de falar em audiofilia, isso é algo um tanto controverso). O comprometimento com cada uma dessas abordagens pode levar a resultados inesperados. Como eu escolhi a alta-fidelidade (todos sabemos que existem coisas que não se escolhe) toda a teoria de alinhamento de cápsulas fonocaptoras bem como os ângulos de ataque da agulha afloraram na minha cabeça enquanto segurava aquela "piece of technology" de 6g. De todas as atividades deste hobby, com certeza a instalação adequada de uma cápsula é a tarefa mais demorada e enervante, uma vez que qualquer deslize pode-se quebrar uma cápsula de milhares de dólares. Não conheço nenhum fornecedor/vendedor de cápsulas que tenha um serviço de instalação. Numa primeira tentativa de instalação, motivado pela curiosidade (será que foi um bom investimento?), gastei duas horas para alinhar a cápsula. Coloquei um disco para rodar e o resultado, comparado ao da cápsula anterior, foi espetacular. Mas eu sabia que podia ficar mais espetacular ainda, era só fazer o ajuste "fino" da agulha. Idealmente a agulha deveria estar alinhada dentro da cápsula mas como a construção desses dispositivos é manual, isso nunca acontece. O ajuste passa a ser da agulha e não da cápsula. Existem dois ângulos que devem ser considerados no ajuste da agulha:

Azimuth

1) olhando a agulha de lado o ângulo da agulha em relação à superfície do disco deve ser 92 graus (esse ajuste é chamado SRA, stylus rake angle);

2) olhando a agulha de frente o ângulo deve ser 90 graus (este ajuste chama-se azimuth). É claro que o braço do toca-discos deve ter a possibilidade desses ajustes, mas nem todos são ajustáveis. Para tal tarefa é necessário um microscópio usb e um programa para medir ângulos. A tarefa é árdua mas os resultado é muito gratificante. Como tudo é ajustado manualmente e os dispositivos existentes no braço para tal não são micrométricos, o trabalho será sempre de tentativa e erro. E muitos erros. Para cada medida gastei em média dez minutos em colocar a agulha sobre um espelho, aproximar o microscópio (um milímetro de diferença e perde-se o foco), fotografar a imagem, transportá-la para o programa de medir ângulos, fazer a medição e repetir o processo até chegar aos ângulos desejados. Isso me custou várias horas debruçado sobre o equipamento. Mas valeu o penar. Agora estou ouvindo todos os meus discos novamente pois com uma agulha mais precisa tanto as qualidades como os defeitos da gravação saltam aos ouvidos, existem coisas que "estavam lá" mas eu nunca tinha ouvido. Mais uma vez, para os incrédulos, uma boa comparação é o olhar um céu estrelado, a olho nú se vê muita coisa, com uma luneta, se vê um pouco mais e outros astros só podem ser vistos com um telescópio! Para uma explicação detalhada sobre o processo de ajustes, siga este link. . 

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