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Published on by Wandique

"Como nossos pais" ...

As explicações da "volta ao vinyl" são muitas, desde a (não tão) óbvia "qualidade do som" até "o ritual" de ouvir LPs. Mas o que realmente buscamos quando nos voltamos à uma midia tecnologicamente ultrapassada pelo digitalismo que assola a humanidade? O pós guerra (minha geração quando fala em "pós guerra" estamos nos referindo à Segunda Guerra Mundial) nos fez acreditar que o progresso tecnológico nos traria a felicidade. Esse "progresso" se manifestou de diversas maneiras e numa velocidade estonteante. Houve um tempo em que usar objetos de plástico era considerado moderno, futurista (vide o filme "The Graduate"). Todas as novidades tecnológicas eram consideradas "melhores". Na década de 60 chegamos na Lua e as roupas não precisavam ser passadas (calças "Supervinc" e camisas "Volta ao Mundo"). A "dona de casa moderna" tinha o conforto de eletrodomésticos que não se pensavam alguns anos antes e, "no ano dois mil", teríamos videofones e carros voadores, como no desenho dos Jetsons. Felicidade garantida (ou o dinheiro de volta). Muita coisa aconteceu e muito mais não aconteceu desde então. Foi a contracultura que começou a "volta às origens", uma primeira visão de que o "futuro" nunca chegaria, que "o sonho acabou". Hoje busca-se o "retrô", o passado, as lembranças adolescentes. Dizem (não eu, eles) que a "Geração X" foi mimada demais e educada para um mundo ideal (ou idealizado pelos seus pais) onde eles reinariam. Só não contaram para eles que só pode haver um rei. Deu no que está dando. Então vamos voltar no tempo para ver se conseguimos consertar o que achamos estar errado. Tenho muita certeza que isso se dá num plano inconsciente, a "volta ao vinyl" pode ser enquadrada nesse nicho de "inconsciência coletiva". Tanto pode ser uma busca proustiana do tempo perdido como uma simples regressão: voltar à última vez em que eu estava seguro (no passado) quando me sinto ameaçado (no presente). Para mim é um misto dessas duas coisas (Proust e regressão), a simples razão não é suficiente para resolver os problemas atuais, é preciso resgatar a experiência emocional e misturá-la ao suposto consciente (agora individual) para tentar a solução de seja lá o que for. Então o "ritual" de ouvir vinyl não é algo simplesmente nostálgico,  é necessário para "realimentar as baterias", dar segurança. Ouvir "Yesterday" ("all my troubles seem so far away") não é uma apreciação estética mas uma fuga (me perdoem o óbvio), e em vinyl, uma volta a um passado confortável e seguro. Cada um com suas próprias referências,  seu background, sua história (ou conto de fadas) inconfessável. E não me venham dizer que o som do CD é melhor, vire o lado do disco pois a verdade pode estar lá. 

P.S.: alguém ainda ouve CDs?

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