Em busca do disco perdido

Published on by Wandique

Em busca do disco perdido

Li "Em busca do tempo perdido" ("À la recherche du temps perdu" de Marcel Proust) nos meus vinte e poucos anos a aquilo foi um alumbramento. Apesar de árdua, a leitura é muito gratificante. Naqueles dias eu ainda não procurava "o disco perdido" pois eles ainda estavam sendo prensados e ninguém poderia supor um tempo em que eles quase se extinguiriam em detrimento da modernidade digital. Muito bem, Proust nos ensina que só o passado é real pois o futuro é uma esperança e quando se torna presente, existe um período muito rápido de absorção, através dos sentidos, e quando o percebemos, se tornou passado. As lembranças emocionais são recuperadas, involuntáriamente, pelos mesmos sentidos que propiciaram o seu armazenamento mas associadas ao "em torno" do evento lembrado. Explico. Alguma coisa que acontece está cercada de outros estímulos sensoriais que são armazenados na nossa memória juntamente com o evento principal e, se essas outras informações (que podem ser a temperatura ambiente, a luz, o vento, um sabor ou um som) são percebidas tempos após o evento principal, esse evento é lembrado. O exemplo que Proust dá são as madeleines com chá que cada vez que ele comia lembrava de sua infância (existe uma cena do desenho "Ratatouille" que nos ensina visualmente isso). Muito bem, como um som ou uma música também cria esse tipo de lembrança concluo que essa "busca do disco perdido" é uma maneira de nos levar à reviver um momento que nos foi prazeroso, associado àquela música. Se essa conclusão é verdadeira penso que estou precurando lembrar (ou reviver) algo que vivi na minha adolescência ou infância. O que realmente representa a música dos Beatles ou dos Stones ou do Led Zeppelin ou seja lá quem for para cada um de nós? Estou falando de uma busca emocional e não estética. Quando procuramos ou preferimos uma primeira prensagem ao invés da última remasterização do "Dark side of the moon" o que realmente estamos procurando? Claro que isso vale somente para aqueles que "estavam lá" quando o disco foi lançado caso contrário, a procura seria histórica somente. Tenho muitas "primeiras prensagens" e busco muitas outras mais. Claro que toda uma vida é muito mais que um disco velho rodando no toca-discos, mas (às vezes) como dói.

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